IMPORTANTE: A Matéria a seguir, foi originalmente publicada no site #OxeRecife e é assinada pela jornalista Letícia Lins. Aqui reproduzimos na íntegra o conteúdo de #OxeRecife , assim como o texto da autora Letícia.
Nesse dia 31 de março, em que é lembrado o Golpe de 1964 – para que jamais esqueçamos das consequência da ditadura (sequestros, torturas, desaparecidos) – o #OxeRecife dá destaque a mulheres que lutaram contra o regime de exceção e contra injustiças sociais. E que sofreriam risco de apagamento, caso não tivessem a trajetórias registradas em livros. É uma forma, também, de encerrarmos o mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, homenageando aquelas que fizeram história. E Nanci Lourenço (1946-2025) é uma delas.
“Por onde a vida alcançar, lutas e lembranças de Nanci Lourenço” é um livro de mais de cem páginas, com conteúdo cuidadosamente organizado por Arlindo Soares, companheiro de militância de Nanci (foto acima) e com o qual ela constituiu família e com quem viveu até o fim da vida. Aguerrida, Nanci, sempre se manteve firme na defesa dos seus princípios. Dizia que “se a intenção deles era nos amordaçar e destruir, pelo contrário, saímos mais fortes. Ela tinha uma coragem “imensurável” segundo os amigos, mesmo que estivesse diante do mais temido dos algozes do regime militar.
Sim, isso mesmo. Não se intimidou nem na frente de Sérgio Paranhos Fleury (1933-1979), logo após ter sido presa pela DOPS no interior da agência bancária onde trabalhava, em São Paulo. Fleury era então um notável agente das trevas. “Você sabe por que está aqui?!”, indagou o policial. “Por ter sido líder estudantil, acho”, disse ela. O torturador ordenou a um dos soldados que assistia ao interrogatório, que lhe aplicasse um forte “telefone”. Ao ser espancada nos dois ouvidos, Nanci olhou para Fleury e lhe indagou: “Por que o senhor fez isso comigo? Eu fiz algo contra o senhor?”. Fleury, de triste memória, ordenou, então, que levassem “essa menina para baixo”. Ela pensou que ia para um calabouço onde as torturas eram praticadas, mas descobriu, aliviada, que ficaria entre outras presas. Ainda na cadeia, foi pressionada por um coronel para que dissesse, na TV, que “os militantes políticos deveriam apoiar o regime militar” pois “uma ala dos militares estava a favor da abertura política”. Ela respondeu que apoiaria esse movimento, “quando os militares fossem às ruas para defender publicamente o fim da ditadura”.
Brava Nanci! Na verdade, ela havia se empregado no banco em SP com o objetivo, segundo José Arlindo, de fazer o que mais gostava: “trabalhar na base de um movimento sindical”, mas foi detida em decorrência da queda da organização clandestina em que militava. Desde adolescente ela mostrava vocação para liderança, inclusive durante os estudos secundários quando começou, também, a militar por justiça social e em defesa dos direitos dos estudantes. Seu desempenho na liderança dos interesses de 30 mil alunos, chamava a atenção das autoridades e dos jornais do Ceará, onde – quase menina – virou manchete.

“Ao final da gestão à frente do Centro de Estudantes Secundaristas do Ceará, em meados de 1967, o CESC estava “reorganizado, respeitado, e com alcance politico ampliado”, segundo o livro. Filha de um técnico em eletrônica e de uma costureira, soube do golpe por um dos rádios que o pai tinha em casa para conserto. Em 1969, já na Universidade Federal do Ceará (onde ingressara em 1967, no Curso de Direito), tranca matrícula para se envolver na luta clandestina contra o regime. Em 1969, casa por procuração com José Arlindo, que se encontrava no Rio Grande do Sul. Em 1970, é detida em São Paulo. Os dois só conseguiriam viver juntos a partir de 1973. Tiveram três filhos (Camilo, Sérgio e Natália) e dois netos.
Em 1974, Nanci fez concurso para o Ministério do Trabalho, mas só assumiria em 1980, com a Lei de Anistia. Enquanto o MT não a convocava, criou colégios (Hermilo Borba Filho e Arco-íris) com proposta libertadora, mas deixou a atividade quando assumiu o cargo no MT, onde desenvolveu funções relacionadas à educação da juventude e foi Coordenadora do Grupo de Combate ao Trabalho Infantil.
Assumiu posteriormente a presidência do Centro de Estudos Josué de Castro. No Josué de Castro, Nanci trabalhou na pesquisa “Trabalhadores Invisíveis – Crianças e adolescentes nos canaviais” – que mostrava a triste realidade da exploração de mão de obra de meninos e meninas nos engenhos de Pernambuco. O estudo, concluído na década de 1990, daria origem ao PETI, programa de erradicação do trabalho infantil do governo federal.

Como vocês podem perceber, são muitas informações de uma pessoa que dedicou a vida à luta contra a ditadura e contra as injustiças sociais, estas que até hoje não são poucas no Brasil. O livro vem sendo distribuído em bibliotecas oficiais e comunitárias do Recife e do Ceará, e aos professores da Universidade Federal da Paraíba, colegas de José Arlindo, que lá ensina. Um exemplar será destinado ao Memorial da Democracia. Há uma versão digital (mais compacta) na Amazon. O acesso é gratuito. Mas quem estiver interessado na versão impressa, pode solicitar no CJC, via e-mail [email protected]. A tiragem foi pequena e restam poucos exemplares em disponibilidade.
Conteúdo original do site #OxeRecife , com texto de autoria da jornalista Letícia Lins