O Rio, o Mangue e a Semente Cidadã – O Encerramento do Projeto Cidadania Ambiental

16 de dezembro de 2025

Foto e Texto: Alcione Ferreira

Recife é uma cidade conhecida por ser rasgada por rios e costurada por pontes, tendo em suas margens, sobretudo, o ecossistema do mangue. Nesta paisagem híbrida, onde o concreto se ergue sobre a lama e a desigualdade social é tão visceral quanto a maré alta, a luta pela dignidade humana e pela sobrevivência ambiental se fundem em um único grito. É neste cenário que o projeto Cidadania Ambiental – Formação para Jovens em Educação Ambiental e Cidadania encerra suas atividades, deixando um legado não de ponto final, mas de vírgula na longa e vital história do Centro Josué de Castro (CJC).

O encerramento do projeto, conduzido pelo CJC, em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha de Pernambuco (Semas), simboliza a continuidade de uma missão iniciada há quatro décadas: a de desnaturalizar a miséria.

A Arte como Ponte e o Direito como Raiz na Cidade dos Mangues

Foto: Cesar Ricardo

Em Recife, a crise climática há muito deixou de ser uma ameaça futura para figurar como uma realidade cotidiana que atinge de forma desproporcional os territórios mais vulneráveis, aqueles que convivem com a lama, a enchente e a falta de saneamento. Neste contexto local, a cidadania ambiental se torna um ato de defesa territorial e de afirmação da vida.

O projeto Cidadania Ambiental abraçou a arte como mediadora e catalisadora dessa consciência. A articulação entre direitos humanos, meio ambiente, cidadania e arte não só é estética, como também profundamente política. A arte é a linguagem que rompe o silêncio e as barreiras da linguagem técnica. Ao utilizar o audiovisual, a fotografia e as artes visuais, como promovido nas oficinas de Arte, meio ambiente e tecnologia, Cinema: imagem, cotidiano, meio ambiente e
Cidadania, Fotografia e Identidade da Comunidade
, juntamente com as oficinas de Ecossistema Urbano e Sustentabilidade, Segurança Alimentar e Nutricional, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Cidadania, os jovens transformam discurso em plataforma de denúncia e de projeção de um futuro sustentável. Este movimento de expressão social alinha-se a outras iniciativas recentes no Recife que usam a cultura para debater a emerdgência climática e a resistência de povos tradicionais.

Os Números que Tecem a Mudança

Foto: Tainá Andreza

Os resultados do projeto atestam a potência da metodologia aplicada:

  • Jovens conectados: Foram 90 jovens estudantes do ensino fundamental II (8º e 9º anos) e ensino médio (1º e 2º anos) de comunidades vulneráveis do Recife selecionados e engajados no processo de formação.
  • Alcance multiplicado: O impacto se estendeu, alcançando um público total de 280 pessoas envolvidas nas atividades preparatórias e de sensibilização, como a Mostra Josué de Castro.
  • Formação integral: O currículo de formação trabalhou temas centrais como “Ecologia e Meio Ambiente” e “Direitos Humanos e Cidadania”, reforçando a perspectiva que a questão ambiental é, primariamente, uma questão de direitos.
  • Ferramentas de cidadania: A produção de materiais artísticos, além de um mapa de vulnerabilidade ambiental pelas turmas participantes demonstra que o projeto gerou ferramentas concretas de mobilização e análise local. A metodologia ativa e participativa, que valoriza os múltiplos saberes, foi fundamental para estes resultados.

Da Geografia da Fome à Justiça Ambiental

O presidente do CJC, José Arlindo Soares, em evento de culminância de uma das turmas do curso. Foto: Alcione Ferreira

A trajetória do Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro (CJC), fundado em 1979 por intelectuais recifenses, é inseparável do legado de seu patrono. Josué de Castro, o Geógrafo da Fome, não apenas diagnosticou a chaga da miséria no mundo, mas, nascido e criado às margens dos mocambos e manguezais da capital pernambucana, provou que a fome é um fenômeno social e político, produto de uma estrutura socioeconômica, e não uma fatalidade da natureza.

O sentido das ações do CJC hoje, e o âmago do projeto Cidadania Ambiental, reside precisamente em expandir o conceito de luta de Castro. Se antes era a fome física o inimigo central, hoje o combate se estende à fome de direitos, à injustiça social e, crucialmente, à injustiça ambiental. O Centro trabalha para fortalecer a democracia e a cidadania através da pesquisa e intervenção social, garantindo que o direito humano à alimentação, à moradia e a um meio ambiente equilibrado sejam vistos como interdependentes. O projeto atua como um laboratório vivo desta visão, transformando a luta pela cidadania socioambiental em ferramenta de resistência para as juventudes.

O projeto Cidadania Ambiental, ao capacitar a juventude com conhecimento técnico e político , plantou sementes fortes. O encerramento das atividades é, portanto, o início de uma nova fase, onde a cidadania, armada com arte e análise crítica, florescerá nas ações de intervenção comunitária.

A luta por um mundo mais justo, que Josué de Castro começou , segue agora nas mãos e vozes dessa nova geração que aprendeu a ver o meio ambiente como um direito humano a ser defendido.

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